Adeus birras na hora de desligar a TV ou o jogo no tablet

Artigo escrito para a B de Brincar por Oficina de Psicologia


Que pais nunca tiveram dificuldade em afastar os seus filhos dos ecrãs? Quantos não ficam de cabelos em pé quando os chamam vezes sem conta e as crianças continuam agarradas à televisão, telemóvel ou ao tablet? Por vezes, acabam por lhes por desligar a TV ou retirar os aparelhos à força, com berros e choros à mistura, situação desgastante quer para filhos, quer para os pais.
Para os pais pode ser bem claro qual o momento em que a criança deve parar, uma vez que o tempo de utilização da tecnologia foi combinado previamente e a avisaram de que o tempo estaria a terminar. Para nós adultos, é claro e justo o suficiente, mas para a criança, não é.
Imagine que falta a eletricidade quando está a ver a sua série favorita ou o seu clube está prestes a marcar golo? Ou que o seu filho muda de canal no momento mais aguardado do seu programa? Sejamos francos, se é difícil para um adulto interromper um estado de prazer, imagine então como se sentirá uma criança, que ainda não tem capacidade de autocontrolo e autogestão emocional bem desenvolvida.
Quando estamos absorvidos num filme ou num jogo de computador estamos mentalmente num outro mundo. Os ecrãs, com as luzes, os sons, o ritmo das imagens, parecem hipnóticos para os nossos cérebros. Sentimo-nos bem e não queremos fazer mais nada naquele momento, sendo produzida dopamina, um neurotransmissor que estimula a sensação de bem-estar e prazer. Tudo está bem, até que o ecrã seja desligado. Os níveis de dopamina no corpo descem rapidamente e sem aviso, e eis que a birra começa. Segundo a psicóloga clínica francesa, Isabelle Filliozat, para a criança, desligar a televisão ou parar um jogo a meio, assemelha-se a sentir um choque de dor física, neurologicamente falando.
Sendo assim, compreendemos melhor algumas reações das crianças quando interrompemos estas atividades. Em vez de simplesmente os pais clicarem no botão "desligar", existem estratégias para facilitar estas situações, nomeadamente, criar uma ponte entre onde a criança está e onde o adulto está, entrando no mundo da criança. O que quer isto dizer na prática?
Ao invés de, como é tão comum acontecer, os pais lhe berrarem de outra divisão da casa, ordenando que vá fazer outras tarefas, quando os pais entendem que está na hora de a criança desligar os ecrãs, experimente sentar-se junto do seu filho e envolver-se no que ele está a fazer. As crianças adoram quando os pais mostram interesse nas suas atividades. Um simples minuto de envolvimento pode fazer toda a diferença! Veja um pouco de televisão com ele e faça questões sobre o que está a ver, quem são as personagens, ou observe o que ele está a jogar, perguntando em que nível do jogo vai, por exemplo. À medida que a criança for respondendo às suas questões, vai começando a regressar ao mundo “real” e os níveis de dopamina descerão progressivamente.
Posteriormente, será mais fácil comunicarem, pois a criança já estará num modo em que ouve os pais e consegue responder aos seus pedidos. Nesse momento, poderá então dizer-lhe o que deve fazer a seguir, tomar banho, jantar, etc.
É uma pequena estratégia que deve se aplicada de forma consistente ao longo do tempo e aliada a regras e limites bem definidos na rotina da criança. Se na primeira vez que tentar não resultar como idealiza, não desista. Com paciência e treino estes momentos de tensão familiar na hora de desligar a tecnologia diminuirão de intensidade e frequência.

Por Raquel Carvalho
Psicóloga Clínica, Equipa Mindkiddo da Oficina de Psicologia