Aprender História a jogar

Artigo publicado no jornal Tribuna Alentejo


Para além de se referirem a períodos ou eventos históricos importantes para Portugal, o que têm em comum os seguintes cenários?

Durante a chamada “Idade da Pedra” surgiu a agricultura, o processamento de recursos e a construção de cabanas simples em pequenas comunidades. Iniciou-se o comércio e intensificaram-se habilidades tradicionais como a caça para nutrir uma crescente população…

Nos séculos XV e XVI, Lisboa era um importante porto comercial. Daqui partiam frotas de caravelas e naus para os “novos mundos” dos Descobrimentos, carregadas de especiarias e matérias-primas…

Criados pelos árabes, os azulejos (inicialmente peças de cerâmica em azul e branco) tiveram total adesão pelos Portugueses quando seu rei Manuel I, numa visita ao Palácio de Alhambra (sul de Espanha), ficou deslumbrado pela beleza da cerâmica mourisca. O Rei ordenou imediatamente que o seu próprio palácio em Portugal (Palácio Real de Évora) tivesse as paredes decoradas com azulejos semelhantes…

Oeiras, meados do séc. XVIII: Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal) habitava o seu Palácio de Oeiras. Algumas visitas importantes estão para chegar ao Palácio e há que ter tudo preparado para as receber…

O Estoril tem praias maravilhosas, um óptimo tempo, um casino e hotéis de luxo. Durante a Segunda Guerra Mundial, essas características atraíram muitas personagens especiais: Reis e princesas, diplomatas, políticos e refugiados de alto perfil e de todas as origens. Durante este período sombrio da história, muitos destes personagens partilhavam uma actividade comum: espiar…

Estes cinco cenários são o pano de fundo de outros tantos jogos de tabuleiro: Stone Age, Caravelas II, Azul, O Palácio do Marquês e Estoril 1942.

Sim, os jogos de tabuleiro modernos são excelentes formas de diversão e de convívio, mas também podem ser uma importante via de transmissão de conhecimento histórico através dos seus temas e das suas mecânicas. A forma mais simples de o fazer será simplesmente jogar um jogo com uma temática histórica bastante presente no seu contexto, na sua mecânica e na sua arte. É natural que a curiosidade natural dos jogadores acabe por os levar a procurar saber mais sobre o tema. Por outro lado, pode ser uma forma de ajudar a memorizar importantes datas, personalidades e eventos.

Um jogo pode ser uma excelente e divertida forma de introduzir um tema numa aula de História, diminuindo, assim, a resistência que, frequentemente, os mais novos têm ao estudo do passado. Há, inclusive, jogos que, através das mecânicas de utilizam, permitem perceber de forma prática os mecanismos, processos e evoluções presentes em determinados acontecimentos ou períodos históricos.

Além disso, um tabuleiro de jogo pode ser uma eficaz forma de perceber visual e mecanicamente os contextos e critérios que levaram a algumas decisões que mudaram o curso da história: geografia, recursos disponíveis, períodos temporais, demografia, tecnologia,...

Uma outra forma muito interessante de ensinar História com jogos de tabuleiro de uma forma crítica é utilizando-os para ajudar a responder a questões do tipo “E se…?”. Por exemplo, “E se os Estados Unidos da América tivessem ignorado o avanço comunista no sudeste asiático na década de 60 do século passado?”. Esse cenário pode ser reproduzido através do jogo Twilight Struggle.

De facto, um jogo de tabuleiro pode ser muito mais que uma simples forma de diversão: pode ser um poderoso recurso de disponibilização de conhecimento.

Vamos jogar?

Por Carlos Ramos
Director do Departamento de Jogos de Tabuleiro da B de Brincar; Responsável pelo projecto Board Games for Training