Jogos de tabuleiro e intervenção social

Artigo publicado no jornal Tribuna Alentejo


Sim, os jogos de tabuleiro são excelentes alternativas aos brinquedos automáticos e aos jogos digitais para as crianças. Não, não se destinam apenas aos mais novos.

Sim, o Monopólio, o Trivial Pursuit, o Xadrez e as Damas são jogos de tabuleiro. Não, não são os únicos (na verdade há mais de 80.000 jogos de mesa publicados!).

Sim, há grupos de jogadores que, pelas suas características e preferências de jogo, constituem um nicho muito específico da população. Não, não são só estes a eleger jogos de tabuleiro como passatempo.

Sim, os jogos de tabuleiro proporcionam importantes e fantásticos momentos lúdicos. Não, a sua função não se esgota apenas aí.

Já é tempo de olhar para os board games com uma outra visão, livre de preconceitos e ideias feitas (mas sem sustentabilidade real). Já tive oportunidade de escrever sobre o papel dos jogos de tabuleiro na educação, no desenvolvimento pessoal e social, na formação profissional, etc. No entanto, o seu papel não se esgota nessas vertentes: são também um instrumento eficaz em intervenção social.

Acredito que esta afirmação coloque um sobrolho franzido em muitos dos nossos leitores. Mas a melhor forma de o provar é apresentar-vos três exemplos concretos.

A Cidade Curiosa, uma associação de Braga, desenvolveu em final do ano passado, um projecto para integração de refugiados recorrendo a jogos de mesa. Utilizando-os como ferramenta central, a iniciativa permitiu que comunidades de migrantes tivessem mais contacto com o que é Portugal, quebrando barreiras e criando laços entre jogadores de diferentes nacionalidades.

A B de Brincar, uma empresa alentejana, há cerca de um ano que realiza sessões com jogos de tabuleiro no Estabelecimento Prisional de Évora. Estas sessões, que decorrem sob a aparência de momentos de convívio entre reclusos, são, na verdade, períodos em que se desenvolvem competências sociais, educativas e culturais.

O Clube de Boardgamers de Leiria dinamiza mensalmente manhãs com jogos de tabuleiro no Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar de Leiria. Os utentes aí internados participam em momentos de entretenimento diferentes, num ambiente positivo e cognitivamente estimulante.

Podendo ser muitos mais, estes casos são apenas alguns exemplos nacionais de intervenção social com jogos de tabuleiro, dos muitos existentes por este país fora.

Afinal, isto de jogar é coisa séria…

Vamos jogar?

Por Carlos Ramos
Director do Departamento de Jogos de Tabuleiro da B de Brincar; Responsável pelo projecto Board Games for Training